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Uniram-se contra fogo que fez quatro feridos

Dora Mota, J.N. [2010-09-01]

O fogo começou numa encosta e espalhou-se por um fundo vale de S. Pedro da Cova, rodeando casas e deixando os moradores em pânico. Foram eles os primeiros a pegar em baldes e a solidariedade marcou o combate às chamas, que causaram quatro feridos.

O fogo foi extinto ao cabo de várias horas de combate, que mobilizou dezenas de bombeiros e quatro meios aéreos.
Paulo Amorim mora na casa da Rua do Tardariz que fica mais perto do fundo vale onde mais tarde se afogaram as labaredas. Não estava lá quando o avisaram do lume a lamber-lhe a vivenda e, quando chegou, já os vizinhos lhe tinham salvo a casa.

"Tenho uma piscina e toda a gente aqui em redor estava com baldes de água quando cheguei", contou ao JN, de mangueira na mão, a apagar os restos de fumo em redor da casa. "Hoje só tenho a agradecer", desabafou. Começou a chover e Paulo terá sentido dupla sorte: "Até isto tenho agora a agradecer".

Quando a chuva começou, por volta das três da tarde, já outros lugares do lado de lá do vale, Passal e Gandra, tinham passado o pior. Em Gandra, lugar de casas modestas, tudo fumegava. Dois moradores ficaram feridos.

Eurico Monteiro, de 46 anos, tombou no fogo quando ajudava a combatê-lo, ainda os bombeiros não tinham chegado. Inês Rodrigues, de 14 anos, desmaiou por inalação de fumo quando levava água aos bombeiros. Uma das suas vizinhas, Maria da Conceição Sousa, era quem tinha a maior lista de estragos pelo incêndio.

Mora na ponta da rua, ao lado um eucaliptal esturricado. O quintal ardeu todo. No chão, os restos de 28 galinhas apanhadas pelas chamas. Foram destruídos materiais de construção do marido e, por pouco, o fogo não alcançou um anexo onde guardam diluentes. "Tínhamos betoneiras, ardeu tudo", contou.

Rosa Maria vive ali perto e, como outros vizinhos, aponta culpas a quem deixou no chão material combustível. "Vêm para aqui cortar eucaliptos e deixam para trás os ramos todos. É uma porcaria, deixam tudo, até móveis e colchões".

Foi o lixo que alimentou o fogo, acusam os moradores do Passal e da Gandra. Essas chamas, referiu ao JN o comandante dos Bombeiros de Gondomar, Abel Ferreira, tiveram projecções de 500 metros a um quilómetro, causando ignição no vale do Tardariz, onde liderava as operações.

Dali, avistava-se uma frente na Murta, onde uma habitação isolada chegou a preocupar. Livrou-se do fogo, que consumiu uma casa devoluta e o carro de um emigrante, além do quintal de Maria da Conceição. Deixou uma paisagem preta e fumegante, árvores cinzentas e quebradas. O presidente da Junta de S. Pedro da Cova, Daniel Vieira, lamentou serem poucos os meios de combate.

"No auge do incêndio vimo-nos aflitos, mas com o esforço de todas as equipas conseguimos minimizar o que se passou", admitiu o presidente da corporação local, António Costa. "Pedimos reforços, mas com os incêndios aqui no Norte, foi complicado", disse.  Dois bombeiros do seu quartel foram para o hospital de Valongo, um deles por inalação de fumos, o outro arrasado pelo cansaço.

A menina que quer ser bombeira caiu quando dava água aos bombeiros

A avó de Inês Rodrigues, de 14 anos, conta com emoção como o voluntarismo da neta a levou, ontem, ao Hospital de Santo António, inspirando cuidados.

"Ela quer ser bombeira e pediu-me água e sumos para levar aos bombeiros. Estava a dar água a uma bombeira nossa, de S. Pedro, e caiu", contou Maria da Silva Sousa, sublinhando que a sua neta foi apenas uma das muitas jovens que acudiram à aflição dos moradores da Gandra. Inês é de lá, mas muitos não eram. "Apareceu aqui gente de todo o lado, muitos nem os conhecia", referiu.

Outro habitante do lugar, Eurico Monteiro, de 46 anos, foi vítima da vontade de ajudar. Mal soube do incêndio, alertado por uma das filhas, saiu de casa e foi ajudar a atirar baldes de água às chamas activas numa zona cheia de entulho. Tropeçou e tombou no fogo, de onde um vizinho o resgatou.

"Ficou muito queimado num braço, no joelho e na orelha. Vinha com o cabelo todo chamuscado e a cara toda vermelha", descreveu uma das filhas, Patrícia. "O INEM demorou muito tempo a chegar", queixou-se. Eurico Monteiro, reformado por invalidez devido a problemas de coluna, foi tratado no Santo António e a família esperava que tivesse alta ainda ontem.

 

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