Mais de quatro mil pessoas aguardam por uma consulta de Dermatologia no Centro Hospitalar de Gaia. Para combater esta lista de espera, os médicos de família estão a fotografar as lesões dos doentes para ouvir a opinião do especialista e evitar idas inúteis ao hospital.
O método é simples e já está a dar resultados. Quando Margarida Cabaços, médica de família da Unidade de Saúde Familiar de Além D’Ouro (Sandim) atende um doente com um sinal ou uma lesão de pele duvidosos, pega na máquina fotográfica e dispara. Depois passa a imagem para o computador e os administrativos enviam-na por email para o Serviço de Dermatologia do Centro Hospitalar de Gaia.
No gabinete ou em casa, Armando Baptista, director do serviço desde 1991, abre a caixa do “Outlook” e olha as imagens. Em segundos, decide se o doente precisa de intervenção cirúrgica urgente, se tem de ser visto por um especialista, se necessita de um tratamento simples ou nem isso.
“Já conseguimos reduzir 20% dos doentes que seriam encaminhados para o hospital sem ser necessário”, assegura o director do serviço, que se debate com uma das maiores listas de espera do Centro Hospitalar de Gaia. Ali, os utentes aguardam em média nove meses por uma primeira consulta de Dermatologia, o que determinou a integração da especialidade no projecto “Consulta a Tempo e Horas”.
A possibilidade de ver a imagem no computador deixa Armando Baptista e Margarida Cabaços mais descansados e o doente melhor servido. “A escrita é sempre subjectiva e, às vezes, a capacidade de descrição de alguns médicos não é famosa. Ou seja, os relatórios não nos permitem avaliar a urgência da necessidade de marcação de consulta e/ou cirurgia”, explica o especialista.
Para Margarida Cabaços, esta articulação com o hospital “é um auxílio extraordinário” no diagnóstico e “muito benéfico para o utente”. Além de evitar deslocações incómodas e inúteis ao doente, o sistema permite maior rapidez no acesso à consulta.
Em situações muito urgentes, a imagem funciona como uma espécie de “via verde” para entrar no hospital. “O doente traz uma carta do centro de saúde e é operado no dia”, assegura Armando Baptista.
A médica de família exemplifica com casos reais: um doente, que atendeu no dia 13 de Abril, com uma inflamação nas mãos. O problema não era urgente, mas a consulta foi marcada para um mês e 13 dias depois. Antes, pela via normal, poderia demorar mais de um ano.
Outro exemplo: a 11 de Janeiro examinou uma doente com uma lesão na língua. Enviou a imagem para o hospital e a consulta e cirurgia para extracção do quisto foram realizadas no dia 10 de Fevereiro.
A funcionar há 11 meses, o novo método de referenciação do doente por via telemática já encaminhou 118 doentes. Outros 27 foram aconselhados a fazer tratamento sem deslocação ao hospital, permitindo reduzir a lista de espera da especialidade.
Por agora, o sistema está a funcionar na USF de Além D’Ouro (Sandim), na USF da Boa Nova (Arcozelo), nos centros de saúde de Canidelo e da Madalena, mas a ideia é alargar a todos até finais de Outubro.
A Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN) considera que vale a pena alargar o conceito a outros hospitais e manifestou abertura para comprar as máquinas e ajudar na formação dos profissionais.